Vasco D'Avillez

O vinho português casa bem com o futuro.

"O nosso caminho é o da qualidade. Teremos, isso sim, de continuar a afinar, a melhorar e a aperfeiçoar o quanto já produzimos."

Vasco D'Avillez

O vinho português casa bem com o futuro.

"O nosso caminho é o da qualidade. Teremos, isso sim, de continuar a afinar, a melhorar e a aperfeiçoar o quanto já produzimos."

Dizer que o nosso entrevistado é um notável e prodigioso contador de histórias, ainda que seja verdade, talvez peque por redutor. É que logo nos primeiros minutos da conversa que se estenderá por uma hora, percebemos que o homem que preside desde 2011 à Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa (CVR Lisboa) é acima de tudo um pedagogo que conhece a sua região e o seu país, muito especialmente no contexto da vinha e do vinho, e desse conhecimento profundo só guarda para si a alegria do eterno aprendiz. A essência do que aprendeu é para compartilhar. Seja com o simples curioso que o interpela no dia-a-dia. Seja com o estrangeiro mais entendido na matéria que o questiona sobre o talento de Portugal para produzir vinhos que, pelas melhores razões, estão a deixar literalmente o mundo boquiaberto… Vasco d’Avillez fala de tudo com uma vivacidade expressiva no gesto e no sorriso. Um sorriso de menino ao revelar-nos a felicidade infinita de ver crescer os seus catorze netos, e a satisfação vibrante de ver reconhecidos e cada vez mais afirmados os vinhos portugueses. E assim a vida merece um brinde.

Nem de propósito… Precisamente hoje, dia em que decorre a nossa conversa, a revista norte-americana Wine Spectator, considerada a ‘bíblia’ dos especialistas do vinho à escala universal, publicou o seu Top 100 para 2017. Nessa selecção dourada figuram quatro vinhos portugueses: o Tinto Quinta das Carvalhas Touriga Nacional 2014, da Real Companhia Velha; o Tinto Colossal Reserva 2015, da Casa Santos Lima; o Porto Vintage Guimaraens 2015, da Fonseca; e, a fechar a ‘constelação’ lusitana, o Tinto Chryseia 2014, da Prats & Symington. Isto é, um vinho da Região de Lisboa na companhia de três Durienses… 

É verdade. Quatro vinhos que muito honram Portugal. E a circunstância de lá estar um DOC Alenquer em representação da Região de Lisboa é algo que, naturalmente, me enche de orgulho. Mais uma boa notícia, a juntar a tantas outras, numa sucessão de prémios e distinções que só nos motivam a continuar a trabalhar em busca da perfeição. E é essa utopia que a todos nos deve mover em tudo o que fazemos, para que o possamos fazer cada vez melhor. É razão para dizer, numa observação e avaliação mais amplas, considerando o todo nacional, que o vinho português anda – pelas melhores razões, bem entendido – nas bocas do mundo? Com certeza que sim. É manifesto que o vinho português tem feito um esforço fantástico para estar no lugar que hoje ocupa nas percepções, nos gostos e, por isso mesmo, nas recomendações dos entendidos e dos simples apreciadores e consumidores. Os nossos vinhos podem ombrear com qualquer Chateaux de Bordéus ou Domaine da Borgonha, só dar para dar dois bons exemplos, a que poderia juntar ainda importantes vinhos com a assinatura do Chile, da Argentina, da Austrália ou até dos Estados Unidos, leia-se Califórnia. 

O que nos distingue realmente e poderá abrir novos mercados e uma sólida perspectiva de futuro?

A história, a memória, o saber de experiência feito e partilhado com cada nova geração. Vejamos: os norteamericanos, por exemplo, estão a fazer um excelente trabalho na área dos vinhos, mas tiveram de recrutar o tal ‘saber’, seja na América do Sul, seja sobretudo na Europa. Nós portugueses, muito pelo contrário, não precisamos de comprar o know-how. Temos uma experiência humana na nossa geografia ligada à cultura do vinho que andará perto dos mil anos de história. Os norteamericanos ainda não chegaram aos sessenta… Ora isso é muito relevante, muito benéfico para aqueles nossos argumentos que podem ser – e são – diferenciadores. Além disso, há outro factor que pende claramente a nosso favor: a versatilidade.

Pode concretizar?

Com todo o gosto. Enquanto os países produtores de referência apresentam vinhos de qualidade inquestionável, mas invariavelmente em torno das mesmas castas, os vinhos portugueses são uma constante vertigem criativa, um permanente desafio aos sentidos, uma sempre aguardada novidade pela nossa propensão natural para o blend, para a sábia conjugação de castas, numa reinvenção que nos coloca num patamar cada vez mais alto de superação. E se tivermos presente que em Portugal ainda temos mais de trezentas castas disponíveis para dar suporte a essa dimensão criativa, é fácil concluir que o futuro vai certamente ‘casar’ bem com o vinho português.

Do ponto de vista do investimento na alta cultura do vinho, se assim podemos dizer, também teremos evoluído muito. Que lhe parece?

Os citados mil anos de sabedoria popular são coisa tangível quando falamos, por exemplo, em localidades que levam o nome de Ventosa – e assim é por referência aos ventos generosos que vêm do mar, originários da Corrente (Quente) do Golfo, refrescando e regando as videiras de noite e secando as uvas de dia – ou quando somos confrontados com terras chamadas de Barro ou Bombarral – aqui dando testemunho de terras de bom barro – em alusão aos terrenos argilosos e, por isso, férteis para a cultura da vinha e do vinho. Combinando os ensinamentos da memória com o conhecimento académico, científico e tecnológico, cumprimos Portugal na sua dimensão de produtor de vinho de superior qualidade. E nesta equação devemos render tributo a um núcleo de professores catedráticos que, a partir dos anos setenta, modificou os padrões produtivos do vinho em Portugal – até então o que é importava era o grau de álcool do vinho bruto acabado de fazer, tendo por padrão os 12 graus. Acima disso valeria mais, abaixo disso valeria menos… O importante era o grau alcoólico. O restante era secundário. Sucede que com os referidos académicos, tudo mudou. E para sempre. Entre esses mestres, tenho de destacar duas figuras marcantes: Manuel Vieira, professor do Instituto Superior de Agronomia, e Bianchi de Aguiar, docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Do seu trabalho muito beneficiaram os alunos e a fileira do vinho em Portugal. Com a sua intuição abrimos definitivamente novos horizontes. Nunca antes, as uvas haviam sido apanhadas separadamente em função das respectivas castas. Nunca antes, as uvas foram tão cuidadosamente tratadas e transportadas. Nunca antes, a figura do enólogo emergira como peçachave em todo este contexto.

Situando a realidade actual face ao futuro, podemos seguramente falar da existência de uma estratégia para o vinho português?

Seguramente. A estratégia existe e quem a define e executa é a ViniPortugal. Uma entidade que, devo sublinhar, tem feito um trabalho estupendo na afirmação consistente do vinho português. Se recuarmos vinte anos, é fácil lembrarnos de uma realidade em que o Vinho do Porto, cujo capital de notoriedade era já então destacadíssimo, fazia o seu caminho paralelo como se de uma realidade à parte se tratasse. Hoje, mantendo intacto todo esse capital, o Vinho do Porto e os Tranquilos e Espumantes fazem parte de um mesmo todo, e isso mesmo é reconhecido nos mais destacados certames e avaliações, de onde sobressai justamente o ‘barómetro’ Wine Spectator. É bom termos presente que Portugal tem uma produção média anual de 7,5 milhões de hectolitros, enquanto outros países produtores, com maior escala, têm médias de 40, 50, quase 60 milhões… O nosso caminho é o da qualidade. Por isso, as futuras estratégias não podem entrar em derivas que comprometam esse objectivo. Resulta daí que, globalmente, não teremos de produzir mais. Teremos, isso sim, de continuar a afinar, a melhorar e a aperfeiçoar o quanto já produzimos. Se olharmos os números mais actualizados, vemos que o vinho português está a crescer em valor, devendo superar este ano os 1.200 milhões de euros, 70% dos quais em exportações. Sem dúvida, um excelente desempenho.

Se eventualmente convidado para uma prova cega internacional, ser-lhe-ia fácil identificar os vinhos portugueses?

Talvez os tintos fossem mais fáceis… Até porque os nossos tintos têm a sua singularidade, principalmente o final de boca, aquela nota adstringente que é óptima e nos convida logo a seguir a mais um gole, mais um brinde… Nos brancos, vejo a tarefa mais complexa – é que a sua grande evolução qualitativa coloca-os lado a lado com os melhores do mundo num registo de avaliação muito equiparado, sem a tal nota distintiva dos tintos. Já nos rosés, arrisco a dizer que o trabalho estaria mais facilitado – e por uma razão: os nossos vinhos, neste caso, são substantivamente melhores que todos os outros, seja na cor ou no sabor. No que respeita aos espumantes, é praticamente válido o que digo em relação aos brancos, isto é, estamos quase ao nível dos mais cotados e reconhecidos.

E em relação à sua ‘dama’, a Região de Lisboa, quando faz as respectivas apresentações que argumentos elege para definir os vinhos do seu portefólio?

São vinhos especiais. Os tintos aproveitam bem o sol abundante, que lhes confere aroma especial, textura e corpo geralmente médio para alto – mas não alto de mais; são, por assim dizer, vinhos muito versáteis e que bem beneficiam, para além do sol, da frescura que vem do mar, frescura feita humidade que o vento traz e o que o vento leva. Os brancos são muito agradáveis na boca, suaves (12 graus é a média) e frutados, tanto mais leves quanto mais fruta tiverem. Nos últimos cinco anos, construíram-se em Portugal sete nove adegas de raiz, seis das quais aqui entre nós. Está à vista toda dinâmica e o potencial de crescimento da Região de Lisboa. Uma região que brinda com o País inteiro ao futuro dos vinhos portugueses.