Carlos Moedas

Agricultura tem mais a ganhar com a inovação.

Português e alentejano, como gosta de sublinhar, Carlos Moedas está atento às grandes questões colocadas pela globalização e por uma Europa ainda pouco segura das consequências do Brexit. De uma coisa está certo: “Se conseguirmos abrir a agricultura à investigação e à inovação, descobriremos um potencial surpreendente para o futuro”.

Carlos Moedas

Agricultura tem mais a ganhar com a inovação.

Português e alentejano, como gosta de sublinhar, Carlos Moedas está atento às grandes questões colocadas pela globalização e por uma Europa ainda pouco segura das consequências do Brexit. De uma coisa está certo: “Se conseguirmos abrir a agricultura à investigação e à inovação, descobriremos um potencial surpreendente para o futuro”.

Defendeu, há dias, em Marvão, na Escola de Verão da Comissão Europeia – Summer CEmp, a dimensão inclusiva das novas tecnologias, concretamente as digitais, considerando-as “o grande motor para ajudar a reduzir as desigualdades”. Deu, inclusive, o exemplo da base de dados blockchain, sublinhando a circunstância de, por essa via, se tornarem mais ágeis e justas as transacções entre pessoas. Será por aqui que, de alguma forma, se poderão corrigir as injustiças provocadas pela globalização?

Acredito que as novas tecnologias não só melhoram o nosso quotidiano como podem corrigir algumas desigualdades que existem nas nossas sociedades, em particular através da utilização da inteligência artificial, do blockchain e da computação quântica. O blockchain faz algo extraordinário na economia porque elimina os intermediários e põe directamente duas pessoas em contacto para fazer uma transacção. Isto acaba por trazer para a economia pessoas que muitas vezes nem sequer faziam parte da economia. É por isso fundamental continuar a trabalhar para que a tecnologia seja cada vez mais inclusiva e fácil de usar para todos. Entendo ser responsabilidade dos decisores políticos proporcionar aos cidadãos a oportunidade de adquirirem as competências digitais necessárias.

Nesse contexto, assinalou ainda que foi a tecnologia que levou a vários países africanos «a primeira experiência bancária», permitindo nessas sociedades matriarcais que as mulheres pudessem controlar as contas bancárias das famílias através da internet. Neste capítulo da inclusão tecnológica, qual é a estratégia da Comissão Europeia, e o que destacaria da ‘obra feita’?

A tecnologia encurta distância, idades, classes... Mas não podemos reduzir a inovação à sua componente tecnológica. Há cada vez mais inovação social, o que acaba por dar um sentido às coisas e reduzir as desigualdades. Em 2017, lancei um prémio de dois milhões de euros a quem inventar uma nova maneira de ajudar na mobilidade das pessoas idosas,

hoje um problema numa população envelhecida como é a da União Europeia. Em 2060, quase um terço dessa população vai ter mais de 65 anos, valor que é quase o dobro do actual. Entretanto, Portugal tem sido o líder da inovação social, tanto nas ideias como no empreendedorismo, com vários projectos fantásticos que a UE tem vindo a apoiar.

Retomando o tema da globalização, temo-lo ouvido frequentemente dizer que a classe média foi a grande prejudicada com esta nova realidade. Importa, pois, saber que soluções
tem a Europa para reparar esses danos no seu espaço de influência e, de caminho, olhando o mundo e nele observando, para além de Bruxelas, o posicionamento de Washington, Moscovo e Pequim – o que pode esperar o mesmo universo de pessoas (classe média) na próxima década?

Antes de mais, temos de interiorizar que a globalização não é boa nem má. É um facto. O comércio internacional representava 20% do PIB mundial. Hoje são quase 50%. A UE exportou 1,7 triliões de euros em 2016. E para cada 1.000 milhões de euros em exportações calcula-se que sejam criados 14.000 postos de trabalho. Mas temos de ser claros sobre os efeitos da globalização, positivos – e também negativos. O famoso “Elephant Chart” do economista Branko Milanovic mostra como a globalização retirou uma grande parte da população mundial da pobreza (1.000 milhões nos últimos 20 anos). Contudo, mostra também como os mais ricos ficaram muito mais ricos. Quem perdeu? Parte da classe média dos países ocidentais ficou estagnada e muitos até ficaram pior com a globalização. No fundo deixámos que a globalização aumentasse a desigualdade. E essa desigualdade alimenta os movimentos anti-globalização e uma vaga de populismo de extrema-direita e extrema-esquerda. Os populistas de esquerda e de direita dizem que a solução para esta desigualdade é fechar as economias e voltar ao proteccionismo. Como podemos resolver este dilema? Temos de assegurar que a globalização e a economia do futuro também beneficiam a generalidade dos europeus. A tal classe média que aparece cá em baixo no gráfico de Milanovic. Aquilo a que Pascal Lamy chama “civilizar a globalização”. Para tal, temos de inverter o ciclo de baixa produtividade na Europa. Se conseguirmos pôr a funcionar novamente o motor da produtividade, poderemos ter uma globalização mais justa e equitativa. A UE tem vindo, por exemplo, a encorajar a digitalização de sectores tradicionais, muitas vezes regulados, que ainda não estão a beneficiar da revolução digital. Também incentivamos mais investimento privado e público através do Plano Juncker, de que Portugal é dos maiores beneficiários.

E em relação às nossas gerações face ao projecto europeu – como convocar os jovens para o futuro da Europa?

Como Comissário, tenho tido imensas oportunidades de dialogar com jovens. Seja em Portugal ou no resto da Europa, verifico que há uma atitude completamente diferente em relação às gerações mais velhas. Hoje em dia, mesmo quando já trabalham, os jovens procuram um sentido de vida, um purpose como dizem os ingleses. Querem sentir-se úteis à sociedade. Seja de forma cívica ou política. Tento sempre evidenciar as vantagens muito concretas da UE. Mas muitas delas os jovens já nem se apercebem porque sempre fizeram parte do seu quotidiano, como a liberdade de circulação ou o Erasmus. Já dão isso por adquirido e nem conseguem imaginar outra realidade. Mas o Brexit veio demonstrar que a UE não é um dado adquirido. É um projecto que deve ser defendido todos os dias porque está a ser ameaçado.

O Horizonte 2020 está prestes a cumprir-se. No que reporta à sua esfera específica de atribuições e competências, que leitura faz do aproveitamento e das consequências do programa-quadro agregado ao tripé Investigação-Ciência-Inovação?

Em 2014, «herdei» da minha antecessora o programa Horizon 2020 ainda numa fase de arranque. O programa está hoje em velocidade de cruzeiro a produzir excelentes resultados tanto em termos de investigação fundamental como na inovação. Nesse contexto, Portugal também verifica uma melhoria substancial dos resultados – a meio do programa (2014/2020), já tinha alcançado mais de 500 milhões de euros, ou seja, mais do que durante todo o programa anterior (2007/2013). Da mesma forma, deixarei ao meu sucessor o programa Horizon Europe, no qual tenho vindo a trabalhar e que conta com um projecto de orçamento de 100 mil milhões de euros, a ser negociado entre o Conselho de Ministros da UE e o Parlamento Europeu.

A assinalar este ano a sua 5.a edição consecutiva, o Prémio Empreendedorismo e Inovação Crédito Agrícola, aberto a projectos candidatos nas áreas da agricultura, agro-indústria e floresta, é o exemplo de como uma instituição financeira centenária continua a ter o futuro bem presente. Como avalia esta iniciativa?

A agricultura no sentido lato da palavra é dos sectores que mais tem a ganhar com a inovação. Como português e alentejano, basta-me recordar o exemplo de sucesso que é o Alqueva, tanto do ponto de vista agrícola como da paisagem, ou ainda do potencial de desenvolvimento da região em termos económicos, energéticos e turísticos. Hoje há uma enorme quantidade de tarefasque conseguimos não só mecanizar mas até digitalizar, economizando tempo, esforço, recursos. Agora temos o potencial para entrar num novo capítulo da história. Temos o potencial para levar a inovação agrícola a um nível completamente novo, capaz de introduzir produtos no mercado e atrair talento e investimento. A CE aprovou a proposta de quadro financeiro para o pós-2020. O orçamento proposto para a investigação e inovação é de 100 mil milhões de euros, o que demonstra bem a importância que a Comissão atribui ao futuro e à competitividade da Europa. Mas, além disso, propusemos que um décimo desse montante – 10 mil milhões – seja consagrado à investigação agro-alimentar. Por isso acredito que «Prémios de Empreendedorismo e Inovação» neste sector são fundamentais para apoiar as empresas e as comunidades rurais mais inovadoras, assim como para estimular o desenvolvimento de novas tecnologias agrícolas e inovar ao longo de toda a cadeia de valor agro- alimentar. Não tenho dúvidas de que, se conseguirmos abrir a agricultura à investigação e inovação, descobriremos um potencial surpreendente para o futuro da agricultura.