Cadaval

Discurso do Presidente do Conselho de Administração

É para mim uma grande honra participar nas comemorações do Centenário da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo do Cadaval, onde vamos ter oportunidade de homenagear os seus fundadores e todos aqueles que até ao presente contribuíram para a sua consolidação e prestígio, para além de tentarmos desenhar alguns aspectos, do futuro contexto, que irão condicionar a actividade desta Instituição.

Esta evocação que hoje aqui nos junta, para mais, é valorizada pela participação de ilustres amigos da Caixa Agrícola do Cadaval – Entidades Oficiais, Dirigentes do Crédito Agrícola, Membros dos Órgãos Sociais e outros Associados, Clientes e Colaboradores da Caixa do Cadaval.

Em meu nome pessoal e do Conselho de Administração que aqui represento, cabe-me a honra e o privilégio de apresentar os nossos cordiais cumprimentos de boas-vindas a V. Exas. e expressar o nosso maior reconhecimento pela Vossa presença nesta sessão comemorativa do Centenário desta Caixa Agrícola, pois constitui um sinal do apreço de V. Exas. por aqueles que fundaram e mais contribuíram para o desenvolvimento da Caixa do Cadaval.

Hoje a nossa atenção está focada, em primeiro lugar, nos vinte Cadavalenses que, há exactamente um século, tomaram a iniciativa de fundar esta Caixa Agrícola, suprindo assim uma lacuna no domínio do apoio financeiro aos agricultores do concelho, que na generalidade não tinham possibilidades de conseguir crédito junto das instituições financeiras então existentes, e todas localizadas fora do concelho.

No livro que hoje irá ser apresentado nesta sessão faz-se uma descrição pormenorizada das referidas vinte personalidades, permitindo-me agora distinguir entre elas os três Cadavalenses que constituíram a primeira Direcção da Caixa: os Senhores Anselmo Carneiro da Silva, José Soares dos Reis Júnior e José Moraes Marçal.

Mas se a aludida iniciativa foi altamente meritória, importa também, nesta data, homenagear todos aqueles que colaboraram de forma directa no andamento da Caixa, recordando que, até aos anos oitenta do século passado, esta Instituição não dispunha de recursos próprios suficientes, recorrendo então ao apoio financeiro de entidades estatais que, como credores da Caixa, exerciam um controlo apertado da gestão da mesma, não lhe tendo permitido uma expansão capaz de responder inteiramente às necessidades dos seus inúmeros Associados.

Com os ventos da democracia foi possível libertar as Caixas Agrícolas da tutela oficial, sendo a este propósito oportuno e justo homenagear, hoje e aqui, o Associado desta Caixa, e distinto cooperativista, Engenheiro Agrónomo José Vicente Carvalho Cardoso, juntamente com outros insignes dirigentes do Crédito Agrícola – sendo que um outro pioneiro, na matéria ora em apreço, muito nos honra com a sua presença nesta cerimónia, o nosso amigo Senhor Jorge Nunes, ilustre Presidente do Conselho de Administração da Caixa Agrícola da Costa Azul.

O Engenheiro Carvalho Cardoso distinguiu-se pelos esforços desenvolvidos no sentido de ser criada, em 1978, a Federação Nacional das Caixas de Crédito Agrícola Mútuo (FENACAM), com funções eminentemente de representação política, seguidamente a fundação da Caixa Central, responsável pela gestão dos recursos excedentários, orientação, apoio e auditoria das Caixas Agrícolas que integra, e, ulteriormente, o Sistema Integrado de Crédito Agrícola Mútuo (SICAM), que veio conferir uma elevada segurança às Caixas abrangidas. Acrescente-se que, mais recentemente, o Grupo Crédito Agrícola expandiu-se, com muito sucesso, nomeadamente para a área seguradora, beneficiando das sinergias que congrega.

Estas novas estruturas de enquadramento do Crédito Agrícola, acompanhadas pela publicação de legislação que veio permitir o alargamento das funções atribuídas às Caixas Agrícolas, propiciaram condições de expansão e de segurança, que conferiram ao Grupo Crédito Agrícola um lugar de relevo no sistema financeiro português.

A Caixa Agrícola do Cadaval aproveitou naturalmente as oportunidades facultadas por este novo enquadramento e, em estreita cooperação com a Caixa Central, passou a ocupar uma posição de destaque entre os bancos que actuam no seu concelho, dispensando um amplo apoio aos seus Associados e Clientes, distinguindo-se, nomeadamente, pela confiança que oferece aos depositantes – é considerada uma instituição de refúgio –, pela celeridade de resposta que faculta aos mutuários e pela responsabilidade social que assume perante a comunidade a que pertence.

A Caixa Agrícola do Cadaval é hoje uma instituição muito sólida e ágil na sua actuação, o que lhe tem permitido atravessar com segurança os tempos turbulentos que, desde 2008, têm afectado seriamente a actividade financeira e a economia, em Portugal e em outros países.

No que ao contexto económico diz respeito, e sendo a agricultura o sector de actividade económica predominante no concelho do Cadaval, importa salientar que duas alterações relativamente recentes vieram deteriorar a rentabilidade das explorações agrícolas. A primeira prende-se com a adesão de Portugal às Comunidades Europeias e consequente harmonização dos preços agrícolas portugueses aos comunitários, e subsequente aproximação destes aos preços mundiais – o que terá conduzido, inclusivamente, a um decréscimo da superfície agrícola nacional, estimado em 1,3 milhões de hectares.

A segunda reside na crescente importância que as grandes cadeias comerciais vêm assumindo na distribuição alimentar e concomitante aumento do desequilíbrio nas relações de negociação entre comerciantes e agricultores. Justo é reconhecer a publicação, há cerca de dois anos, de legislação tendente a minorar posições abusivas; todavia, a experiência tem revelado que importa melhorar a actual legislação, por exemplo, restringindo a realização de promoções a dois meses por ano, conforme já se verifica em França.

Sem de modo algum pretendermos escamotear os efeitos erosivos, sobre a rentabilidade das explorações agrícolas, decorrentes das duas alterações supramencionadas, cumpre salientar que os empresários agrícolas, sediados na área de influência da Caixa Agrícola do Cadaval, reagiram às referidas adversidades com empenho e inteligência, em ordem à mitigação da quebra de rentabilidade, designadamente no que concerne às duas principais produções agrícolas do concelho: Pêra Rocha e vinho.

No que à primeira diz respeito, têm-se registado elevados ganhos de produtividade, na ordem de 5% ao ano, melhorias na tecnologia de conservação, crescente agregação da oferta e expansão da actividade exportadora. No tocante ao vinho, assinale-se a introdução de novas castas, a maior mecanização das operações culturais, a melhoria das técnicas enológicas e o aumento das exportações.

As aludidas iniciativas empresariais foram financiadas, em parte substancial, pela nossa Caixa, o que contribuiu para que durante alguns anos se tenha registado um rácio de transformação (depósitos/crédito) próximo de 100 por cento. Mas, todavia, nos últimos anos observou-se um abrandamento do investimento. E, presentemente, receamos que, tendo em conta os constrangimentos financeiros do País, as perspectivas de apoio ao investimento agrícola com fundos públicos não se venham a revelar tão promissoras como seria desejável, o que poderá ter efeitos menos positivos no investimento, e, consequentemente, também, na actividade creditícia da nossa Caixa, apesar de actualmente se praticaram taxas de juro historicamente muito baixas.

Esta última situação prende-se com o primeiro desafio da nossa Caixa e em geral da banca em Portugal e nos restantes países comunitários: assegurar uma rentabilidade sustentável.

Como é bem conhecido, em Portugal, nos últimos anos colapsaram quatro bancos e, a partir de 2011, ano da intervenção externa, os bancos têm vindo a atravessar um período em que quase todas as maiores instituições financeiras sofreram prejuízos elevados. Exceptuam-se os resultados positivos obtidos por alguns grandes bancos portugueses no ano transacto, mas cabe notar que os mesmos são provenientes sobretudo da venda de dívida pública – uma operação financeira extraordinária –, tendo-se mantido reduzido o contributo do produto bancário, responsável pela manutenção de níveis sustentáveis de rendibilidade. De salientar que, presentemente, cinco dos seis maiores bancos portugueses defrontam situações delicadas e muito difíceis.

Durante o referido período importa realçar o andamento sempre positivo do Grupo Crédito Agrícola e, designadamente, da Caixa Agrícola do Cadaval, que tem apresentado resultados positivos todos os anos, o que lhe tem permitido aumentar o capital social e as reservas, tendo atingido um rácio de capital Tier 1 (47%) acentuadamente superior ao exigido pelas entidades oficiais competentes (7%). Esta confortável situação decorre de uma gestão judiciosa e exercida com todo o rigor que a proximidade dos Clientes permite.

Esta é uma das razões por que continuamos a defender a banca de proximidade, que assenta as suas decisões em relações de confiança que não são fáceis de estabelecer quando se trata de grandes instituições financeiras, mormente quando os centros de decisão estão sediados no estrangeiro, como tende a acontecer com alguma banca presente no País.

Mas, na nossa modesta opinião, a União Bancária tem subjacente a criação de bancos de escala europeia. Desconhecemos quantos bancos irão continuar com maioria de capital português, mas estamos convictos que o Grupo Crédito Agrícola – pela sua situação mais folgada –, é a instituição financeira que se encontra melhor posicionada para permanecer nas mãos dos seus Associados, formulando votos para que as Caixas Agrícolas mantenham a sua independência, em estreita e frutuosa articulação com a Caixa Central e em associação com a FENACAM, desejavelmente reestruturada, a curto prazo, com vista a ter como fins primordiais a representação e defesa dos interesses do Grupo Crédito Agrícola.

Em complemento do que precede, no nosso modesto entendimento e da análise dos problemas ocorridos na banca europeia nos últimos anos, parece lícito concluir-se que a dimensão das instituições é independente da idoneidade e responsabilidade dos respectivos gestores – dois factores determinantes para a boa saúde da banca. Curiosamente trata-se de um sector muito regulado e com exigências cada vez maiores – incluindo uma excessiva segmentação de funções, que eleva os custos administrativos, com especial relevo nas instituições de menor dimensão – como é o caso da Caixa Agrícola do Cadaval –, sem que tais medidas tenham evitado o desequilíbrio, ou mesmo o descalabro, de vários bancos de grande dimensão. Na nossa modesta opinião, por via de regra o problema central reside na honorabilidade dos timoneiros das instituições e na transparência dos procedimentos, conforme é timbre do Crédito Agrícola.

Ainda numa visão prospectiva, será pertinente assinalar duas situações que também poderão afectar a futura actividade bancária. No plano económico cumpre ter presente que a economia portuguesa encontra-se quase estagnada há já longos 15 anos – temos de recuar ao período que vai de 1899 a 1921 para encontrar semelhante estagnação.

Na área financeira – para além da enorme dívida portuguesa, pública e privada, e da vulnerabilidade de alguns grandes bancos, cujo valor de mercado é inferior ao valor contabilístico – importa assinalar que estamos muito dependentes da avaliação da qualidade da dívida portuguesa.

De salientar que o próximo dia 29 de Abril representa um momento crítico na agenda financeira, pois nessa data o rating de Portugal será reavaliado pela agência de notação DBRS. E, se eventualmente esta vier a colocar o nível de dívida especulativa a par do considerado actualmente por outras três agências, poderão ser graves as consequências, nomeadamente para a inclusão da dívida portuguesa no programa de compras do Banco Central Europeu. E, por conseguinte, Portugal poderá voltar a estar sob intervenção externa.

Senhoras e Senhores, Não podemos ignorar os riscos e ameaças que o nosso futuro colectivo enfrenta e, em particular, a actividade bancária.

Mas não pretendemos aproveitar este evento festivo para enumerar todos os problemas que o País defronta. Porém, temos de ter consciência da sua existência, encarando-os com realismo e actuando com a esperança lúcida de os superar.

Nós, Cadavalenses, confiamos e sentimos orgulho na nossa Caixa centenária, que tem por matriz o cooperativismo, e assenta a sua prática em relações de confiança, de proximidade, responsabilidade social e solidariedade.

Durante o primeiro meio século da sua existência foi a única instituição financeira presente no concelho e tem denotado uma resiliência notável, mormente na recente grave crise financeira, que veio revelar as fragilidades da generalidade dos bancos de grande dimensão – que, nos últimos oito anos, somando dinheiros públicos e poupanças privadas, custaram uma média anual de 12,1% do PIB português.

Nós, Cadavalenses, acreditamos no futuro da nossa Caixa Agrícola, mantendo-se com uma gestão criteriosa e sã, privilegiando o apoio ao investimento agrícola, ao mercado de retalho e aos produtos financeiros tradicionais; continuando solidária com o Grupo Crédito Agrícola, sem abdicar da sua personalidade jurídica, em homenagem aos seus fundadores e a todos os Associados e Clientes que, ao longo de um século, têm cooperado com esta sua Instituição, numa frutuosa simbiose, que muito tem contribuído para a valorização deste património de todos nós. Podemos mesmo acrescentar que esta aproximação amiga ao Grupo Crédito Agrícola favorece bastante a manutenção de uma instituição financeira, e de cariz cooperativo, em mãos de Portugueses, o que, dentro de certa medida, contribui para a defesa da soberania financeira de Portugal.

Já referimos que, em decorrência, sobretudo, da estreita margem financeira, e também por via do elevado volume de crédito malparado, a actual rentabilidade da banca – expressa pelos lucros a dividir pelo capital investido – não é de molde a atrair o capital de que a banca em geral necessita obrigatoriamente. Ora, como além disso não existe capital privado em Portugal e a União Bancária tende a promover a consolidação bancária, o Grupo Crédito Agrícola – que se tem distinguido pela prudência e reforço de capitais – emerge naturalmente como instituição financeira resistente e robusta, capaz de continuar a servir os seus Associados e Clientes, sem intervenção financeira externa, que seria sempre condicionante da actividade das Caixas Agrícolas.

No momento em que comemoramos o Centenário da Caixa do Cadaval, o capital dos seis maiores bancos existentes em Portugal já é maioritariamente estrangeiro ou corre o risco de o vir a ser, pelo que, minhas senhores e meus senhores, na nossa perspectiva o Grupo Crédito Agrícola representa o mais sólido baluarte em defesa da soberania financeira de Portugal. Acresce a sua índole cooperativa, o que significa que os resultados obtidos são retidos na própria instituição, em ordem ao seu robustecimento, em vez de serem transferidos para accionistas estrangeiros.

Assim sendo, um século após a sua fundação, consideramos muito importante e promissor o futuro do Crédito Agrícola em Portugal!

Terminamos agradecendo a todos que, desde há 100 anos, se têm revelado cooperantes e amigos da Caixa Agrícola do Cadaval!

Bem-haja também aos participantes nesta cerimónia, pois a presença de V. Exas. constitui um incentivo inestimável para continuarmos a envidar os maiores esforços em prol da Caixa do Cadaval, e do Grupo Crédito Agrícola, convictos que estamos a contribuir para o controlo nacional da banca residente e, com esta, do crédito interno.

Muito obrigado.

Manuel António Chaveiro de Sousa Soares

Presidente do Conselho de Administração

CCAM do Cadaval