Francisco George

O apelo das grandes causas

Apenas cinco dias depois de se reformar... o trabalho voltou a desassossegar Francisco George. O ex-Director-Geral da Saúde está há pouco mais de um ano à frente da Cruz Vermelha Portuguesa.

Francisco George

O apelo das grandes causas

Apenas cinco dias depois de se reformar... o trabalho voltou a desassossegar Francisco George. O ex-Director-Geral da Saúde está há pouco mais de um ano à frente da Cruz Vermelha Portuguesa.

Presidente em missão de voluntariado, como todos os seus pares na Direcção, ou seja, sem remuneração regular ou pontual. O importante, agora, é continuar a servir Portugal. Com toda a transparência, sentido de responsabilidade e desejo de continuar um caminho. Essa estrada feita de competência e inquietação por cada novo projecto que possa ganhar corpo e alma. É o caso, já no início de 2019, do Heart Center, que vai nascer no perímetro do Hospital da CVP, em Lisboa, e do Complexo de Neurointervenção para as Demências, a abrir em Vila Nova de Gaia. Este homem, português, cidadão do mundo, não pára...

 

Que inspiração, que referências no histórico da Cruz Vermelha Portuguesa tem presente no desempenho da sua missão?

As Damas Enfermeiras constituem uma referência para todo o sempre, para todas as gerações de pessoas que servem a CVP. Convirá saber porquê, relembrando o essencial da história: fundada em 1865, a nossa instituição foi convocada em 1918 para intervir em diferentes cenários – e todos em simultâneo. Estivemos na Flandres, principalmente na célebre Batalha de La Lys, apoiando os militares portugueses na frente de guerra, ao mesmo tempo que éramos chamados para Moçambique, a dar apoio aos nossos combatentes que enfrentavam o mesmo inimigo [os alemães] na fronteira com a Tanzânia, no Rovuma. Acresce que, exactamente na mesma altura, Portugal era assolado por duas ondas pandémicas de gripe, a que o então director-geral da Saúde, Ricardo Jorge, deu o nome de pneumónica. E a CVP esteve na primeira linha da assistência humanitária, promovendo e organizando hospitais. Poucos saberão que, nessa altura, o recém- inaugurado Liceu Camões, em Lisboa, seria convertido temporariamente em hospital com uma capacidade instalada de 500 camas. Se quisermos entender a razão de ser da designação escolhida (pneumónica) para essa essa pandemia que teve o seu pico no Outono – fez em Novembro precisamente 100 anos –, a maioria dos afectados sucumbiu após contrair pneumonia. Maioria essa constituída por jovens, entre os 20 e os 26 anos, coincidindo com as idades dos recrutados para as duas frentes de guerra, onde morreram cerca 8.000 portugueses. A este número trágico temos de juntar outro registo ainda mais dramático – os 135 mil mortos, vítimas da pneumónica, entre os quais inúmeras mulheres jovens.

Voltando às Damas Enfermeiras, a sua missão seria determinante.

Absolutamente. Estamos a falar de um exemplo insuperável de voluntariado. As Damas Enfermeiras estiveram em todas as frentes, nas guerras na Europa e em África, na assistência hospitalar durante a pneumónica e nos orfanatos. Portugal estará eternamente grato a estas grandes mulheres – a estas grandes senhoras. O desempenho notável das Damas Enfermeiras também terá contribuído para a atribuição à CVP da mais alta condecoração do Estado Português – a Torre e Espada.

Emergência, resposta social e saúde. Estes são os três pilares da Cruz Vermelha. Três boas razões para assumir esta nova missão?

Não sei, nunca soube estar parado. Ao atingir o limite de idade [70 anos] fui justamente obrigado a abandonar as minhas funções públicas, nos termos de uma lei com a qual eu concordo sem reservas, porque é preciso dar lugar a outros, aos mais novos, e assim assegurar a renovação. Mas, precisamente por não saber estar quieto e reconhecerem que ainda tenho energias e conhecimento para dar ao meu País, cinco dias depois de ser reformado... candidatei-me ao cargo de Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa – e o seu Conselho Supremo decidiu eleger-me. De facto, os referidos três pilares da CV – sempre na perspectiva da redução do sofrimento humano – são fundamentos com os quais me identifico plenamente e aos quais estou ligado ao longo de todo o meu percurso profissional, em Portugal e no mundo. Gostaria de sublinhar que quem está à frente desta instituição tem de sentir o apelo de uma actividade desinteressada no plano pessoal, mas que é vivamente interessante nos planos ético e cívico. A Direcção da CVP é toda ela constituída por voluntários, não remunerados, nem regular nem pontualmente. Estamos numa missão de voluntariado. Considerando a instituição no seu conjunto e nas suas diferentes competências, a CVP envolve actualmente um universo de 10 mil Colaboradores, dos quais apenas 2.400 são remunerados.

A CVP tem um património relevante e um orçamento anual de 105 milhões de euros. Mas só recebe do Estado subsídios de 1,4 milhões...

Sim, o restante decorre de donativos, de testamentos, de quotizações dos Associados e das prestações de serviços pagas por diferentes entidades, designadamente o Ministério da Saúde e o Ministério da Solidariedade Social.

No topo da actualidade está o tema da transparência. Que comentário lhe suscita esta questão?

A transparência não pode ser apenas uma expressão verbal. Tem de ser concretizável e fisicamente palpável. Exemplo disso mesmo é a página que temos no nosso site, onde as contas e os donativos da CVP são integralmente escrutináveis. Mais: todos os meses, ali publicamos também os extractos bancários.

A polémica em torno de Pedrógão Grande terá colocado aos portugueses múltiplas questões sobre a correcta aplicação de donativos no âmbito de acções solidárias...

Nota prévia: a CVP recolheu, na altura, 600 mil euros em favor da causa de Pedrógão Grande, verba integralmente aplicada, até ao final de 2017, na reconstrução de habitações – nenhuma dúvida, nenhuma reticiência quanto ao nosso procedimento nesse contexto. Porém, é preciso reconhecer que os rumores e os relatos de alguns ilícitos que terão sido cometidos – admito que isso possa ter acontecido – vieram prejudicar o clima de benemerência generalizada que existiu. De tal forma que nós, a seguir à campanha solidária com Pedrógão Grande, decidimos resguardar-nos desse ambiente de suspeição e de uma certa hostilidade, não avançando com outras iniciativas do género até que voltem a existir no País condições favoráveis para tal. Tenhamos bem presente que as organizações não são todas iguais. E a transparência, insisto, não pode ser uma simples palavra, um simples conceito vago. Tudo tem de ser escrutinável. Não há outra forma de estar na vida.

Quanto aos mais recentes desafios da CVP, o que destacaria em termos de emergência? 

A última situação inesperada foi o furacão Leslie, em que muitas pessoas no Centro do país ficaram sem telhado e, por isso, foram acolhidas pela CV. Nos incêndios que fustigaram a Serra de Monchique, as nossas ambulâncias asseguraram o transporte de deslocados para os centros de acolhimento, a exemplo do que havíamos feito anteriormente em Pedrógão Grande.

Pouco mais de um ano após assumir a presidência, o que releva do trabalho já feito pela sua equipa?

As consequências da intervenção da Troika afectaram fortemente a actividade da CVP. E em nome do futuro, tivemos de tomar decisões de gestão importantes, como a venda de algum património edificado que não estava a ser devidamente utilizado. Refiro-me, em especial, a um edifício na Avenida José Malhoa, em Lisboa, e aos armazéns que tínhamos subaproveitados no concelho de Loures. Este processo, que consiste em agilizar os encargos bancários com o património, estará concluído no final do ano. É, por assim dizer, a saúde financeira da CVP que determina estas decisões.

Em contraponto, no que reporta a novos equipamentos, temos novidades...

Novidades muito significativas. A 11 de Fevereiro próximo, vamos inaugurar um Heart Center, no perímetro do Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa. Uma referência em inovação, com métodos pioneiros em Portugal no tratamento das doenças do coração, incluindo a insuficiência coronária, e no contexto das alterações das válvulas cardíacas, tratadas rapidamente com métodos minimamente invasivos. Também no início de 2019, ainda com data a fixar, abriremos em Vila Nova de Gaia um Complexo de Neurointervenção, com todas as valências actuais – e algumas até inovadoras – nos cuidados das demências, projecto cujo desenho conta com o apoio de dois grandes parceiros, um em Espanha e outro em Portugal: a Fundação Rainha Sofia e a Fundação Champalimaud. Importa dizer que há 380 mil portugueses com idade igual ou superior a 85 anos, 40% dos quais com perturbações cognitivas da memória, sendo que existem, sobretudo, três grandes quadros de demência: Alzheimer; uma segunda, de natureza vascular; e uma terceira, designada Corpos de Lewy. Dito isto, as demências devem ser tratadas no plural. E é o que a CVP vai fazer.