22 de Outubro 2018

Chamam-lhe um figo...

Reguengos de Monsaraz, meio da manhã. Os olhos semicerrados são a reacção natural à luz do Sol de Agosto, profusa e implacável nestas paragens de Portugal, e por isso tão generosas em energia solar. Quem aproveita bem tamanha generosidade é o pomar de Figo-da-Índia de Manuel Martins, nosso anfitrião, acompanhado de Rosário Romão, da Direcção da Cooperativa Exotic Fruits e também ela produtora, no seu caso, na Comporta. Em termos de produção dedicada e observando regras próprias, o Figo- -da-Índia é uma fileira ainda muito recente em Portugal; estará a fazer dez anos quando surgiram os primeiros pomares, por iniciativa de pioneiros como Teresa Laranjeiro e Mário Gonçalves, a partir de plantas adquiridas em Itália, embora o fruto – também conhecido entre nós por Figo-de-Pita ou Figo-de-Palma, além de outras designações – exista desde há muito tempo em várias regiões do País, na sua forma desordenada de cacto selvagem que, originário do México, se dá muito bem do lado de cá do Atlântico. Como fileira organizada, o Figo- -da-Índia está actualmente a viver um tempo de clarificação e selecção natural, com alguns investidores pontuais a desistirem, enquanto outros, estudiosos, dedicados e, sobretudo, pacientes, estão a obter excelentes resultados. É justamente o caso de Manuel Martins. No seu pomar, com uma área total de 4,5 hectares (meio hectare acima da área mínima recomendada), as figueiras são cuidadas com atenções de um mestre de filigrana... Ao caminhar- mos, sucedem-se as recomendações para que não toquemos nas palmas (as folhas da figueira), nem nos figos. Tudo aqui está ordenado à esquadria, em razão da altura de cada figueira e da distância entre cactos. A Figueira- -da-Índia gosta de Sol, o sistema de rega gota-a-gota actua duas vezes por semana e, em situações de intempérie, o cacto suporta relativamente bem as chuvas. “Muito importante é o facto de esta cultura ser biológica, ou seja, o solo só leva matéria orgânica”, assinala Manuel Martins. Pegando neste tópico, Rosário Romão esclarece que, para a Cooperativa Exotic Fruits, com as terras sem cultivo há vários anos é mais fácil obter a certificação atribuída aos pomares biológicos. “Em síntese, basta lá irmos colocar a matéria orgânica e plantar. Já em terrenos intensamente cultivados, a passagem a biológico é mais difícil”. Constituída em 2014, a Exotic Fruits está instalada em Sousel, onde é pro- cessado o produto dos cooperantes e expedido para a Grande Distribuição em Portugal e para a exportação – sobretudo Espanha e países nórdicos. Depois da aposta no conhecimento e na formação, a cooperativa centra agora as suas atenções na comunicação do produto. “As várias acções de marketing relacional que temos vindo a promover sublinham as características notáveis do Figo-da-Índia, desde logo no contexto de uma alimentação saudável, ainda que este produto se distinga pela sua extraordinária versatilidade, que o leva a ser cada vez mais, também, uma opção para a indústria farmacêutica, perfumaria e coméstica”, conta Rosário Romão. De volta à conversa com Manuel Martins, tudo começou há cinco anos. E o ba- lanço não podia ser melhor. “Quem tiver condições para investir e, acima de tudo, quem trabalhar com paixão e dedicação a tempo inteiro, poderá ser feliz”. Conselhos sábios de quem sabe do que fala. E se sabe... Aqui, o trabalho começa às 2h00 da manhã e vai até às 10h00, para ser retomado só às 17h00 – estamos no Alentejo, convém lembrar... Mas compensa. Basta olhar para o sorriso inteiro de Manuel Martins, também ele cooperante da Exotic Fruits. “A cooperativa está no bom caminho. E este, como diz o ditado, faz-se caminhando”. Rosário Romão subscreve estas palavras, para depois nos responder à questão dos indicadores mais relevantes da filei- ra. “Cada hectare pode representar, anualmente, entre 20 e 30 toneladas, sendo que, de acordo com as últimas contas, existem já em Portugal cerca de 400 hectares plantados”. Das três variedades de Figo-da-Índia comercializadas – púrpura, laranja e verde, cores que se revelam no mio- lo da fruta – as duas primeiras são as mais representativas, especialmente pelo aspecto, uma vez que, quanto a aroma e sabor, todas se equivalem. A reportagem está a terminar – e da melhor forma possível: a provar o Figo-da-Índia. Depois de cortado em ambas as extremidades, faz-se um corte longitudinal para tirar a pele e... já está. Agora, é comer a polpa sem pressas e sem trincar as sementes, para melhor saborear. E quem diz comer... diz beber. É que o sumo do Figo-da-Índia é toda uma revelação... “Muito saudável”, diz Rosário Romão e Manuel Martins não podia estar mais de acordo.