Gunter Pauli

Temos de ouvir o coração

O olhar que trouxe é de motivação, uma convocatória para a acção, mas também um apelo: a que pensemos com o coração, a que oiçamos mais o coração do que o cérebro.

Gunter Pauli

Temos de ouvir o coração

O olhar que trouxe é de motivação, uma convocatória para a acção, mas também um apelo: a que pensemos com o coração, a que oiçamos mais o coração do que o cérebro.

O entusiasmo com que o belga Gunter Pauli fala é, só por si, inspirador. Ou não fosse a inspiração o motor da mudança, na visão deste autor e empreendedor que veio a Lisboa partilhar o seu olhar sobre o mundo na Planetiers World Gathering, de que o Crédito Agrícola foi um dos patrocinadores principais. O olhar que trouxe é de motivação, uma convocatória para a acção, mas também um apelo: a que pensemos com o coração, a que oiçamos mais o coração do que o cérebro.

 

Estamos a atingir os limites do nosso planeta?

Sem dúvida. Em 1972, o Clube de Roma disse-o: atingimos os limites. Há 48 anos, já sabíamos que estávamos a viver de crédito e, entretanto, o crédito esgotou-se. Isso é parte do desafio que enfrentamos hoje. Há um cientista maravilhoso, o Johan Rockström, do Stockholm Resilience Centre, que definiu as nove fronteiras planetárias, detalhando muito claramente onde estavam os limites. E um dos limites que ultrapassámos é social. Dou-lhe um número: durante o período da pandemia, o desemprego juvenil em toda a Europa atingiu os 50%. Que sociedade estamos a criar? Uma sociedade onde os adultos com mais de 25 anos dizem que não precisam dos jovens, que não sabem o que fazer com eles. Precisamos envolver os jovens. Temos de nos aliar às novas gerações para encontrar soluções. Grassa o desespero entre os jovens pelo que os pais fizeram e ninguém age. Em França, dizemos “beaucoup de diseurs, pas de faiseurs”. Muitos falam, poucos fazem; muitos protestam, poucos agem. Continuamos como antes. Johan olhou para as fronteiras físicas, mas eu olho para as fronteiras mentais e penso que, quando uma sociedade já não precisa dos seus jovens, essa sociedade está em colapso.

É muito mais do que ambiente e sustentabilidade…

Isso acontece porque a sustentabilidade colapsou. E, se há colapso, não há mais valor para ser gerado, porque o eco-sistema não consegue suportar a vida. A reacção das empresas é cortar custos, então elimina-se o futuro para os jovens. É uma reacção em cadeia. Anunciámos há 48 anos que tínhamos atingido os limites, já documentámos que vivemos a crédito e, agora, porque vivemos de crédito, estamos a restringir os orçamentos e, como resultado, os jovens não têm futuro.

Tem defendido que “devemos pensar em grande e agir”. Em que direção?

Devemos pensar muito ambiciosamente. Dou-lhe um exemplo [e pega num livro de sua autoria]: este papel é feito sem água, sem cortar uma única árvore, é reciclável para sempre. Há 15 anos que o fazemos e o único país que o usa é a China. É disruptivo, mas é necessário, porque preservamos milhares de hectares de terra, onde estão a crescer árvores modificadas geneticamente que minam o solo, e preservamos milhões de toneladas de água para fazer papel e outros tantos milhões para o reciclar. Esse é o caminho errado, porque esgota os recursos. É por isso que digo que temos de mudar o modelo de negócio. Mesmo quando digo que vou poluir menos e consumir menos água, ainda estou a poluir muito e a usar demasiado. O modelo tem de ser não cortar árvores e não usar água.

Mas, antes de mudar o modelo económico, não tem de ser mudar a mentalidade? O que vem primeiro?

A inspiração vem primeiro. Foi o que aconteceu em Marrocos – que não tem árvores, nem tem água – quando disse ao rei que podia fazer papel com o desperdício das minas de fosfatos, limpar o ar das partículas de poeira libertada pelas minas, reduzindo, assim, o impacto na saúde, e, ainda por cima, a metade do preço. É preciso ter uma linguagem que faça as pessoas compreender que o novo, não só é possível, como é possível agora. E, hoje, temos contentores de resíduos das minas de Marrocos em testes na China, para que, daqui a dois anos, possamos abrir uma fábrica em Marrocos. O meu papel é esse, de acelerador. Quando as pessoas dizem que parece um sonho, precisam de alguém que ajude a transformar esse sonho em realidade. Mas, depois, é preciso que a liderança acredite. Em Marrocos foi o rei que decidiu, na China foi o Congresso do Povo e hoje temos cinco fábricas, 25 no prazo de sete anos. Porquê? Porque querem limpar o ar. Isso é a economia circular real. É a mudança real.

Como inspirar as empresas?

Não é preciso inspirar o presidente da empresa, mas, sim, os directores financeiros, provando-lhes que, mais do que poupar, podem fazer dinheiro. A inovação tem de ser traduzida em modelos que inspirem as pessoas das finanças. O principal é mudar o modelo de negócio, para um portefólio de serviços que gere mais valor. Uma companhia de fosfatos a fazer papel? McKinsey não concordaria, mas, desta forma, consegue-se duplicar a receita, aumentar os empregos. Os financeiros pensam primeiro no risco, mas eu demonstro que os riscos são menores. E depois mostro que, desta forma, os negócios ganham resiliência – no pior cenário de todos, ficam bem: se tiverem cinco cash flows e alguma coisa acontecer, ficam com quatro, enquanto se tiverem apenas um abrem falência. Esta linguagem eles compreendem. O que fazemos é calcular as sinergias, os efeitos multiplicadores. Dá-nos a capacidade de olhar para a resiliência das empresas e da comunidade. E isto é novo. Se as empresas tiverem a capacidade de olhar para a resiliência da comunidade, tornam-se parceiras bem-vindas. Veja-se a posição recente da Baviera que baniu as multinacionais, por não decidirem localmente. Nunca tínhamos ouvido uma declaração destas antes, mas é nacionalismo? Não. É fazer crescer a economia usando os recursos da comunidade, porque quando se tem um tecido de negócios familiares, ligados emocionalmente à terra, tem-se resiliência na comunidade.

E as pessoas, como se inspiram?

Cinquenta por cento do meu tempo é dedicado à educação. Tenho seis filhos e sei que a educação é muito importante, mas também que, mais do que educação, é a inspiração. Porque a paixão das crianças depois transcende para os pais. Esta é parte da razão pela qual comecei a desenvolver uma pedagogia baseada no pedagogo brasileiro Paulo Freire que, em duas semanas, conseguiu ensinar habitantes das favelas a ler e a escrever. Como é que isso é possível? Porque inspirou as pessoas, mostrando-lhe que, se fossem capazes de ler e escrever, conseguiam resolver os problemas do dia-a-dia. Eu escrevo fábulas. Que ajudam as crianças a fazer as perguntas que habitualmente não são feitas, que as levam a interessar-se por assuntos que não estão na Wikipédia. O meu ponto é que, se queremos ter uma transição na economia, com um novo modelo de negócio, precisamos de uma transição na educação. Não funciona sem mudar o sistema educativo.

A mudança requer uma certa espiritualidade?

Gosto sempre de recuar até Saint-Exupéry e “Le Petit Prince”, que é o livro mais popular do século XX. A dada altura, a raposa diz ao principezinho: “Olha com o teu coração”. E é isso que as pessoas precisam fazer. Mas não estamos a ouvir o coração, estamos a ouvir o cérebro. Vivemos numa sociedade onde tudo é calculado, controlado. Temos de falar com o coração, mas ligá-lo à acção e esta tem de se ajustar ao contexto territorial. Dou-lhe mais um exemplo. O panda era carnívoro, mas, no vale, o tigre ficava com a maior parte da carne e o panda teve de se refugiar na floresta de bambu e comer bambu, pelo que se tornou vegetariano. Se não houver bambu, morre. Já a barata come de tudo. Quem sobreviverá pelas próximas centenas de milhar de anos? A barata, porque é flexível. O que pergunto é como é que vilipendiamos a barata, que come o nosso desperdício, e damos o nosso amor ao panda, que deveria mudar a sua dieta. A mudança é a única constante na natureza, tudo muda, o tempo todo. Por isso, deveríamos ser mais flexíveis, talvez tão flexíveis como uma barata. Precisamos de uma geração que seja flexível.

É autor de “L’Economie du Bonheur”. Como se combina economia e felicidade?

Em teoria, não combinam. Mas, se nos colocarmos no contexto de uma comunidade, de um território, muito rapidamente se vê que o actual modelo económico retira todo o dinheiro da comunidade e, sem dinheiro a circular, está-se a asfixiar a economia local e a comunidade acabará por morrer. Quando se tem muitos desempregados, quando os melhores emigram, quando não se acrescenta valor ao produto local é impossível ter uma comunidade feliz. Uma comunidade capaz de inspirar os seus jovens, para que fiquem, que tem oportunidades de trabalho, que valoriza o que existe, é uma comunidade que tem a possibilidade de ser feliz. Este é o quadro para uma comunidade feliz. E está provado que pessoas felizes são mais saudáveis.

A propósito de saúde, atravessamos actualmente uma crise sanitária com a pandemia de Covid-19. Em que medida é uma crise mais global e, mesmo, de sustentabilidade?

Primeiro, devo dizer que não há realmente uma crise de saúde. Se olharmos para as estatísticas, não há uma crise. Criámos uma crise. Para mim, a referência mais importante é o tabaco. Sabemos que fumar mata sete milhões de pessoas por ano, é um problema de saúde reconhecido e nunca parámos a economia por causa disso. Mas agora fizemo-lo. E precisamos pensar como lidamos com essa quebra. Podemos concordar ou não, mas é uma realidade que temos de enfrentar. Aquele grupo de pessoas dispostas a regenerar a economia olha e vê o efeito devastador desta situação. Há que ter uma tremenda flexibilidade para abraçar novos conceitos, que têm de ser práticos, porque as pessoas querem resultados agora. E um dos poucos sectores que seremos capazes de reavivar em poucos meses é a agricultura.

Se pudesse dar um conselho para que o Crédito Agrícola se tornasse o banco mais sustentável de Portugal, qual seria?

O presidente [do Grupo CA, Licínio Pina] disse-me que o banco tem mais de 600 Agências no País, é uma grande rede, muito próxima das comunidades. Essa proximidade pode ser uma oportunidade para trabalhar com as comunidades e ajudar a identificar aquilo que classifico como a nova fusão – entre agricultura, energia e química. A mudança de que necessitamos é passar de uma agricultura que compete à escala europeia para uma agricultura capaz de alimentar e inspirar a economia local. E o banco é a alavanca para essa mudança.