O artesão de canções que aproximam gerações.
Cinco dias depois de celebrar o 69.º aniversário, o músico recebe-nos no seu estúdio para uma entrevista exclusiva. Na quietude da região de Sintra, onde o microclima é soberano, hoje o Sol brilha com generosidade ao meio-dia, provavelmente para iluminar o jardim e a conversa. Um diálogo breve e sem guião, mas com intenção. A de percorrer, num registo quase telegráfico, momentos e ensinamentos de uma carreira iniciada com o seu Ar de Rock, que continua estrada fora provando que a originalidade gera proximidade.
Quando vai à despensa das memórias mais longínquas, quais são as primeiras recordações que o ligam à música, desde logo a ouvir e a aprender (leia-se apreender)?
Comecei a ouvir naturalmente cedo porque havia música lá em casa, principalmente a que passava na rádio, mas também a que tocava no gira-discos; desde música clássica, como a Patética [Sonata para piano N.º 8 em Dó menor, op. 13] de Beethoven, até ao pop e ao rock. Lembro-me, ali pelos meus 10 ou 11 anos, de um disco dos Beatles - coisa que me interessou… –, outro do Roberto Carlos e ainda outro do Zeca Afonso, quase sempre discos pequenos, single ou EP. Além disso, o meu pai tocava viola, tinha um grupo de amigos que, de vez em quando, tocavam e cantavam Fado de Coimbra e, muitas vezes, levava-me a esses encontros. Depois, comecei a reparar em programas de rádio como o Em Órbita. Os blues revelaram-se na mesma altura, provavelmente com o John Mayall. Ia ouvindo e gravando para um gravador de fita. Também tive contacto com a harmónica bem cedo, mas nunca pratiquei muito; chegava a casa e tocava… Agora, dos 15 para os 16 anos, já peguei numa guitarra. A minha aprendizagem foi sempre à margem da escrita musical. É uma ligação direta ouvido-instrumento. Aprendi totalmente de ouvido, em casa, sozinho, sem mestre. Um ou outro amigo ensinou-me uns acordes. E foi assim, tirando as coisas de ouvido, sempre a ouvir discos e gravações. Até hoje.
Quarenta e seis anos depois do lançamento do Ar de Rock, o que fica para sempre deste primeiro álbum e que, de algum modo, mexe com tudo o que veio a seguir na construção da sua carreira?
É um álbum marcante pela circunstância de ter sido um disco de charneira. Portugal e a música portuguesa estavam nessa altura a precisar de um trabalho que marcasse a mudança, trazendo algo novo e diferente. Foi isso mesmo que aconteceu. A importância do disco é tal que ainda hoje toca e as pessoas querem ouvir essas músicas; pessoas de várias gerações. São as da minha idade, à volta dos setenta, as que têm cinquenta e, até mesmo, as que estão nos vinte, que também gostam de ouvir. Inexplicavelmente as músicas foram ficando, os portugueses gostam. Quer dizer que a originalidade sempre vale a pena – não há nada assim parecido – principalmente neste tempo em que na música está quase tudo padronizado. Ou seja, o disco era uma coisa original na altura em que surgiu e, pelos vistos, continua a ser.
O cantor, o guitarrista, o compositor. É por esta ordem?
O compositor é o que vem primeiro, na medida em que, se eu não compusesse, não estava aqui. Mas, a guitarra e a voz são o que me fazem compor. Portanto, eu componho com a guitarra e com a voz e, claro, com as letras que tenho à frente, que me levam a fazer, naturalmente, certas melodias vocais, que são depois complementadas pela sequência harmónica na guitarra. Seja como for, este é um triunvirato que está absolutamente interligado.
Estúdio, estrada, grandes palcos ou não importa onde, desde que seja a sua música a acontecer?
Sim. Um músico profissional tem de estar preparado para todos os cenários. São níveis de adrenalina diferentes. Um teatro com três guitarras acústicas é uma coisa muito mais exposta, é mais difícil de fazer, exige muito mais concentração. É mais complicado, mas, ao mesmo tempo, quando corre bem – felizmente, assim acontece quase sempre – a satisfação é extrema, a adrenalina sobe ao máximo.
Música e Inteligência Artificial. Uma relação inevitável, ou não será bem assim?
Como diz o Guinga, grande guitarrista e compositor brasileiro de que eu gosto muito, a IA não tem mãe. Isso diz tudo. Transmite zero de emoção. É uma coisa semi-humana, já a caminho do cyborg... Pode haver um robô que me limpe a casa, assim uma coisa útil. Mas, para mim, na música, a IA é facilmente reconhecível; por isso, não estou interessado. Será muito útil para a medicina, a aeronáutica, até para resolver problemas complexos de matemática, para muita coisa que pode ajudar a melhorar a condição humana. Agora, para a música… Eu sou um artesão. Gosto das coisas feitas à mão.
Imagine a legenda para um autorretrato em que não há mais ninguém a ver. Que diria de si para si?
Eu não me vejo muito ao espelho. Às vezes, estou à frente dele e esqueço-me de olhar para mim. Ando há anos a almejar o anonimato, uma coisa a que eu não tive direito desde muito novo, desde os meus 22 anos. Deixar de ser anónimo assim tão cedo pesa muito durante a vida, é muito cansativo, as pessoas estão sempre à espera que alguém, como eu, diga e faça e aconteça. Preferia muito mais estar no armazém do que estar sempre na montra.