31 de Agosto 2026

Primeiro robô plantador todo o terreno do mundo

É português e tem artes de cabra-montês.

Imagine um robô que se move serra abaixo, serra acima. E com essa destreza consegue a proeza de reflorestar encostas íngremes e áreas de difícil acesso. Num planeta todos os anos desfigurado pelos incêndios, a boa notícia é que dois jovens portugueses, Marta Bernardino e Sebastião Mendonça, criaram o Trovador. O primeiro robô de reflorestação todo o terreno do mundo é, justamente, o vencedor do Prémio Empreendedorismo e Inovação Crédito Agrícola 2025, na categoria Conservação dos Ecossistemas Florestais.

 

O primeiro protótipo custou apenas 15 euros e foi feito com materiais reciclados para provar o conceito. A versão seguinte do Trovador já consegue subir inclinações de 45 graus, transporta entre 170 e 200 árvores e tem uma autonomia de três a cinco horas. A verdadeira inovação não está apenas na deslocação que protege os solos ao usar patas em vez de rodas. Está também no método de plantação. Ao contrário dos drones, que espalham sementes com pouca precisão e apresentam taxas de sobrevivência muito baixas, entre 0% e 20%, o Trovador planta pequenas árvores enraizadas uma a uma. Ele procura micronichos onde a sobrevivência é mais provável. O robô analisa as condições do solo, abre o buraco, coloca a árvore e compacta a terra, combinando robótica de precisão, inteligência artificial e análise de solo para plantar cerca de 200 mudas por hora.

“Há outros detalhes importantes que nos diferenciam”, faz notar Marta Bernardino. “O processo envia coordenadas GPS, dados do solo e da bateria para a cloud, permitindo uma monitorização remota que garante uma reflorestação totalmente auditável. Por fim, o modelo de negócio também é inovador. Oferecemos o Trovador como um serviço para organizações profissionais que já trabalham na reflorestação, mas usam métodos menos eficientes, sendo possível coordenar cinco robôs a plantar ao mesmo tempo”.

A história do Trovador começou em junho de 2023. Marta conta que, após concluir o Ensino Secundário, foi a Pedrógão Grande. A paisagem com que se deparou permanecia cinzenta seis anos depois do fatídico incêndio. “Isso deu-nos o mote e, durante o ano de pausa nos estudos, construímos e testámos o primeiro protótipo. Esse marco validou o conceito e trouxe reconhecimento, levando-nos a ser finalistas do Slingshot Challenge 2024 da National Geographic e a receber, em meados de 2025, uma distinção como líderes em robótica sustentável na Europa atribuída pela EURobotics. Em agosto do mesmo ano, passámos do laboratório para o terreno. Como parceiros de plantação da Life Terra, usámos a segunda versão deste robô, já mais robusto, num pequeno teste para plantar árvores nativas”, sublinha Sebastião.

Desde o ano 2000 Portugal perdeu mais de metade da sua cobertura florestal devido aos incêndios e estima-se que cerca de 80% da canópia original [estrutura constituída pelas copas das árvores] se tenha perdido ao longo do tempo. Este é um problema estrutural que se acentua a cada ano que passa. Acresce que a reflorestação não acontece ao ritmo necessário porque o terreno íngreme impede a plantação manual e a chegada de máquinas pesadas. Mais de 30% das florestas portuguesas estão localizadas em encostas de difícil acesso. O mesmo é dizer que o trabalho humano nesses declives resulta extremamente perigoso e limitado.

Marta sublinha a pertinência da “reflorestação rápida, precisa, auditável e capaz de escalar para os milhões de hectares que os modelos climáticos dizem que temos de restaurar nesta década. A palavra ‘auditável’ raramente aparece nas mensagens, mas para nós é tão importante como o local e a forma como plantamos”. Significa que a plantação pode ser examinada durante e após as operações para melhor controlo de sobrevivência.

Por falar em mensagens, “Reflorestar Onde Outros Não Conseguem” é a afirmação-síntese do projeto Trovador. “Resume perfeitamente o problema do acesso, que é a fronteira geográfica que ninguém consegue resolver bem”, argumenta Sebastião, acrescentando que a assinatura “Plantar florestas duradouras, não números” foca-se no método, pois “não se trata apenas de chegar a esses sítios, mas de o fazer com uma qualidade de plantação que antes não existia”.

Em fase de consolidação institucional e de captação de clientes junto de organizações na esfera da reflorestação, ao mesmo tempo que decorrem trabalhos de engenharia e integração de uma versão ainda mais robusta do robô, Marta e Sebastião têm bem definido um rumo e um objetivo: ter o Trovador a operar em projetos de regeneração florestal de grande escala.

Sobre a conquista do Prémio Empreendedorismo e Inovação Crédito Agrícola, falam a uma só voz para dizer que “o reconhecimento destaca o nosso potencial; o nosso trabalho, agora, é transformar esse potencial em desempenho comprovado no terreno”. Depois da National Geographic, WWF, Nações Unidas e da distinção europeia em robótica sustentável, o reconhecimento do Crédito Agrícola é “mais um passo na consolidação da nossa credibilidade” em Portugal e no Mundo. Parabéns!