31 de Agosto 2026
Tecnologia portuguesa de boa colheita
Robô modular e de baixo custo para várias fileiras
As culturas permanentes e de mais difícil acesso, como as vinhas do Douro, têm agora um precioso aliado: o MODULAR-E. Executa tarefas como transporte, pulverização de precisão, gestão do coberto vegetal, monitorização de precisão e fertilização ao solo a taxa variável e ao pé da planta. Funções de poda e colheita estão previstas para validação no próximo ano. Está de parabéns o TRIBE LAB@INESC TEC, vencedor do Prémio Empreendedorismo e Inovação Crédito Agrícola 2025, na categoria Novas Tecnologias na Produção Agrícola.
Tudo começou em 2014, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, quando o INESC TEC criou o TRIBE LAB@INESC, um laboratório único a nível europeu, dedicado à investigação e ao desenvolvimento de soluções de Robótica e IoT totalmente focadas na agricultura e na floresta. Depois de ouvir o setor e identificar as suas reais necessidades, o laboratório definiu um propósito claro: desenvolver soluções robóticas modulares e de baixo custo para três contextos determinantes em Portugal - as vinhas de encosta, as culturas protegidas (estufas) e a gestão florestal.
“Partimos de uma convicção: se conseguíssemos resolver o desafio exigente das vinhas de encosta, seríamos capazes de aplicar a mesma tecnologia à generalidade das culturas permanentes”, conta Filipe Santos, fundador e diretor do TRIBE LAB@INESC TEC. “Traçámos, por isso, um roteiro tecnológico assente em quatro marcos - robôs de monitorização, de pulverização, de poda e de colheita – que nos tem guiado até 2026”. Desse percurso nasceu a família de robôs Modular-E/X, capaz de realizar seis funcionalidades em culturas permanentes, e que entra agora numa fase de maturação, com demonstradores preparados para a comercialização num horizonte de três anos.
A solução Modular-E distingue-se pela dimensão contida, modularidade, eficiência elétrica, capacidade de operar em terrenos de declive acentuado e total autonomia, mesmo na ausência de sinal GNSS. A simplicidade mecânica e o carácter modular permitem executar uma pluralidade de operações, automatizando grande parte do trabalho a um custo ajustado à dimensão média das propriedades europeias. A tudo isto acresce uma capacidade de tração única, pensada para o declive acentuado, e um sistema de navegação avançado e compacto que reduz o custo de produção, permitindo competir com soluções mais complexas e, ao mesmo tempo, ser mais eficiente.
Portugal competitivo
“Estamos hoje a explorar a aplicação da tecnologia ao contexto florestal e ao duplo uso, o que a torna extremamente versátil para os mais diversos casos de utilização”, revela Filipe Santos. O objetivo é claro: dotar as empresas portuguesas de tecnologia robótica que lhes permita competir no mercado global. A partir da experiência acumulada pelo laboratório “podemos ajudar as empresas a desenvolver os seus próprios robôs em tempo recorde e sem o risco de um investimento em desenvolvimento interno. Conseguimos levar novas soluções robóticas até à fase de MVP [Minimum Viable Product], para que as empresas possam testar o mercado – ou os utilizadores finais resolverem necessidades concretas – com rapidez e segurança. É também este conhecimento que nos permite explorar conceitos mais sustentáveis de agricultura e silvopastorícia, integrando robôs capazes de coexistir com os animais na gestão e na manutenção dos campos agrícolas”.
O projeto está numa fase de otimização para produção, demonstração e exploração de mercado, desenvolvida em consórcio com um conjunto de empresas de referência, designadamente a Herculano, a Fravizel, a Pulverizadores Rocha, a TOMIX, a Navigator, a Altri, a Sogrape, a ADVID e a Strong Charon. Os próximos passos passam por validar a tecnologia em ambiente real, com demonstradores de longa duração que permitam quantificar os ganhos concretos nas várias dimensões – económica, ambiental, de produtividade e de sustentabilidade.
Quanto ao impacto positivo do Modular- E, “o acolhimento por parte dos utilizadores e dos tomadores da tecnologia tem sido muito positivo”. Filipe Santos frisa que o setor precisa destas soluções para exportar produtos de valor acrescentado e para os viticultores fazerem face à escassez de mão de obra, aos custos operacionais e às exigências de sustentabilidade. “A velocidade de adoção não será igual para todos, e vão surgir novas formas de utilizar esta tecnologia, desde logo o modelo de robôs como serviço, em alternativa à compra. Aqui, vão nascer, com certeza, novas empresas interessadas em recorrer a esta tecnologia para prestar serviços avançados aos viticultores, reduzindo custos e riscos operacionais”.
O Prémio Empreendedorismo e Inovação Crédito Agrícola é, por um lado, “um forte motivador para a equipa do TRIBE LAB@INESC TEC, que vê o seu trabalho valorizado”. Por outro, “dá-nos uma visibilidade preciosa junto das empresas nacionais que queremos ajudar a inovar – para que possam exportar mais, ser mais eficientes e crescer. Convidamos, desde já, as empresas que queiram desenvolver novos produtos robóticos a encontrar no INESC TEC um parceiro pronto a transformar as suas ideias em soluções reais, a partir do conhecimento científico dos nossos investigadores”. O convite está feito.